Em meu livro Unfashionable [“Fora de moda”, N.T.], escrevi um capítulo sobre a necessidade da igreja de demonstrar mais ira. Obviamente, estou falando não de uma ira egoísta, mas uma ira centrada em Deus.

Ira centrada em Deus é quando você se ira porque Deus foi desonrado e seus caminhos foram distorcidos. Ira egoísta é quando você está irado porque você foi desonrado ou osseus caminhos foram distorcidos.

Em meu livro, eu cito como Marcos 3.1-5 nos mostra um exemplo memorável de ira centrada em Deus.
Um dia, Jesus “entrou na sinagoga, e estava ali um homem com uma das mãos atrofiada”. Enquanto isso, os fariseus na multidão “estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso o observavam atentamente, para ver se ele iria curá-lo no sábado”. Jesus não se intimidou: “disse ao homem da mão atrofiada: ‘Levante-se e venha para o meio’. Depois Jesus lhes perguntou: ‘O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou matar? ’ Mas eles permaneceram em silêncio”.

Preste bastante atenção no quem a seguir: “Irado, olhou para os que estavam à sua volta e, profundamente entristecido por causa do coração endurecido deles, disse ao homem: “Estenda a mão”. Ele a estendeu, e ela foi restaurada.”

Jesus, o Deus encarnado, irou-se. E então lemos em seguida que ele também se entristeceu ao ver a dureza dos corações deles.

Aqui está uma característica super importante da ira divina que nós devemos entender: A ira de Deus é uma ira entristecida. Ela entristece porque vê a devastação que o pecado causa na vida do homem.

Jesus irou-se porque os caminhos de Deus estavam sendo distorcidos e Deus estava sendo desonrado por esses fariseus legalistas. Mas sua ira era carregada de tristeza – ele viu os efeitos mortais do pecado nas vidas daqueles fariseus endurecidos. Foi como se ele os perguntasse “Porque vocês continuam assim? Vocês não percebem que foram criados e designados para muito mais que isso?”. Entristecia-o ver que esses fariseus, por conta de seu pecado, eram apenas sombras do que Deus originalmente pretendia que eles fossem. Eles foram criados para viver por muito mais.

Deus fica tristemente irado quando nosso pecado nos leva a sermos cada vez menos o que ele nos criou para ser, pois fomos maravilhosamente criados para viver por muito mais.

Nossa ira deveria ser uma ira entristecida também. Quando vemos imoralidade e injustiça, nossa ira deveria surgir como conseqüência dos efeitos devastadores que essas coisas têm na vida e na comunidade do homem.

Uma ira entristecida é muito diferente do tipo de ira normalmente associada aos cristãos. Muitas pessoas vêem os cristãos como pessoas amarguradas e raivosas. Eles vêem os cristãos como pessoas frustradas com a nossa cultura porque as coisas não estão do jeito que gostaríamos: nosso compromisso político conservador está indo por água abaixo.

Alguns anos atrás, eu fui um entre as cinco mil pessoas que estava escutando um painel de discussão em uma conferência cristã. Um editor de uma conservadora revista político-teológica estava expressando sua frustração com a política esquerdista, e fazendo isso de uma forma sarcástica e condescendente totalmente desnecessária. Quando ele terminou, John Piper, também participante da discussão, virou-se a ele, e com profunda seriedade e precisão, disse “Por muito tempo eu tenho apreciado seu ministério. Você é um observador astuto da nossa cultura. Leio sua revista todos os meses. Ela é sempre muito perspicaz. Mas tem uma coisa que está faltando em seu ministério”.

O editor olhou para o Dr. Piper e perguntou o que era.

“Lágrimas”, respondeu Piper.

O mundo freqüentemente percebe nossa ira – mas será que eles percebem nossa tristeza? Eles pensam que nós nos iramos simplesmente porque as coisas não estão do nosso jeito, mas eu receio que eles não percebam nosso descontentamento com os efeitos negativos e mortificantes do pecado. Nós falhamos ao expressar nossa ira de uma forma que diga “Você foi criado para muito mais que isso”. Eles assumem que nossa ira é apenas porque não conseguimos o que queremos. Não me surpreende o fato de pensarem tão pouco de nós.

Quando vemos a destruição e o sofrimento na vida das pessoas porque elas não estão em um relacionamento com Deus e vivem vidas cheias de pecado, isso deveria nos irar – uma ira que surge porque os amamos e nos entristece vê-los vivendo por algo tão destrutivo, sendo que Deus os criou para viver por algo bonito e plenamente satisfatório.

A ira egoísta não é uma ira entristecida e cheia de amor; isso é a ira centrada em Deus. Então, sua ira surge porque seu amor por Deus e pelos outros é radical? Quando mais pessoas virem nossa raiva contra aquilo que Deus odeia porque nosso amor por ele e pelas pessoas é real e profundo, talvez elas se abram um pouco mais para ouvir o que nós temos a dizer.

Tullian Tchividjian

Fonte: http://iprodigo.com/traducoes/ira-santa.html

OBS: Foi utilizada a NVI.