Uma das boas coisas que eu aprendi no Jornalismo foi a de rejeitar respostas ou propostas simples demais. Especialmente quando o assunto é complexo. O bom repórter precisa ser um pouco “teórico da conspiração” e buscar sentidos ocultos (mas plausíveis) por trás de cada fato ou declaração. Infelizmente, muitos jornalistas não fazem isso.

Mas abraçar o simplismo não é exclusividade de jornalistas. Embora eu considere que todos, sem exceções, caem às vezes neste erro, penso que a turma do “politicamente correto” é a que mais cai neste conto do vigário. Se for evangélico então…aí as probabilidades chegam a quase 100%.

E poucas frases ilustram melhor esse simplismo do que a frase “pequenas ações podem mudar o mundo”. Não é que eu seja contrário a idéia de que cada um faça a sua parte. Mas irrita-me uma certa ingenuidade estúpida de quem se esconde atrás das ações para não pensar. Pequenas ações só são transformadoras quando movidas por grandes pensamentos.

Imagine, por exemplo, um grupo de pessoas que distribui sopa aos carentes. Se elas são evangélicas, em tese, fazem isso para minorar o sofrimento dos outros e evangelizar, usando o alimento físico como um meio de falar de Jesus, o alimento espiritual. Se elas são espíritas, estão fazendo isso para alcançarem a evolução de seus espíritos e despertarem os mais pobres para a necessidade de evolução. O evangélico e o espírita, embora movidos pela religião, vão em direções opostas. O evangélico, por exemplo, considera que a caridade do espírita ajuda os necessitados a irem para o inferno (já que eles podem se inclinar ao espiritismo). E talvez algum ateu condene os dois grupos por usarem a comida como instrumento de alienação dos pobres.

O que isso mostra? Simples: os pensamentos que estão por trás das ações é que determinam a mudança.

Mas há evangélicos que não vêem assim. Com preguiça de pensar, condenam os que debatem, os que assumem posicionamentos fortes e se preocupam em viver a sua fé dentro de uma determinada visão de mundo. Chegam quase a dizer algo do tipo “enquanto você perde o tempo pensando, você deveria fazer pequenas ações que mudam o mundo”. Amar o próximo, chorar com os oprimidos, fazer caridade, porque essas são as coisas que importam.

Só que eles não percebem que há uma ideologia por trás de cada ação, e que é essa ideologia que determina para onde estamos indo. Eu posso comprar alimentos orgânicos para cuidar da minha saúde ou como um manifesto para acabar com o uso de agrotóxicos. O problema é que a produtividade agrícola cairia muito sem os agrotóxicos, o que faria o preço dos alimentos subir. Só que o ecoxiita cristão (e não-cristão) não quer discutir isso com você.

A Bíblia mesmo ensina que somos mudados é pela renovação da nossa mente:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:2)

Se a mente, ou seja, se o nosso intelecto, se o nosso pensamento, se isso for mudado, nós mudaremos. Mais do que isso: o mundo pode mudar se muitos tiverem as mentes transformadas por Cristo.

Refletir não é perda de tempo. Uma pessoa que só quer fazer pequenas ações pode até ser bem-intencionada, mas está sendo superficial. Precisamos sim encaixar nossas ações dentro de uma cosmovisão (forma de ver o mundo) de modo consciente. É à luz da Bíblia que verdadeiros cristãos analisam a caridade, a política, a arte, a ecologia e tudo o mais. E isso deveria ser ainda mais forte em cristãos que se dizem reformados, herdeiros da tradição teológica representada por João Calvino e os puritanos.

 

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima

Barro nas mãos do Oleiro

Fonte: http://5calvinistas.blogspot.com/